A Paixão do Papa Bento. Seis acusações, uma questão.

2010 abril 8
by Maite Tosta

Traduzido a partir do Inglês (versão de Matthew Sherry, Ballwin, Missouri, EUA. Original em italiano).

http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1342796?eng=y

A pedofilia é somente a última arma apontada para Joseph Ratzinger. Cada vez mais, ele é atacado onde mais exerce seu papel de liderança. Um por um, os pontos críticos de seu pontificado.

Por Sandro Magister

ROMA, 7 de abril de 2010 – Os ataques ao Papa Joseph Ratzinger usando os escândalos envolvendo padres da Igreja como arma são uma constante em seu pontificado.

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São constantes porque cada vez mais, em terrenos diferentes, atacar Bento XVI significa atacar o homem que trabalhou e está trabalhando, nestes mesmos terrenos, com a melhor visão, direção e sucesso.

A tempestade que se seguiu à sua palestra em Ratisbona em 12 de setembro de 2006 foi o primeiro da série de ataques. Bento XVI foi acusado de ser inimigo do Islã, e um proponente incendiário do choque de civilizações. O mesmo homem que com clareza e coragem singulares havia revelado onde a raiz última da violência pode ser encontrada, em uma ideia de Deus mutilada de racionalidade, e então ensinou como superá-la.

A violência e até mesmo matanças que se seguiram às suas palavras foram a prova triste de que ele estava certo. Mas o fato de que ele tinha acertado na mosca foi confirmado acima de tudo pelo progresso que se viu daí em diante no diálogo entre a Igreja Católica e o Islã – não apesar da, mas justamente por causa da palestra em Ratisbona – do qual a carta ao Papa dos 138 intelectuais muçulmanos e a visita à Mesquita Azul em Istambul foram os sinais mais evidentes e promissores.

Com Bento XVI, o diálogo entre o Cristianismo e o Islã, bem como outras religiões, está atualmente prosseguindo com maior consciência sobre o que distingue, por virtude de fé, e o que pode unir, a lei natural escrita por Deus no coração de todo homem.

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Uma segunda onda de acusações contra o Papa Bento o retrata como um inimigo da razão moderna, e em particular de sua expressão suprema, a ciência. O pico desta campanha hostil foi alcançado em Janeiro de 2008, quando professores forçaram o Papa a cancelar uma visita à principal universidade de sua diocese, a Universidade de Roma “La Sapienza”.

E, no entanto – como previamente em Ratisbona e então em Paris no “Collège des Bernardins” em 12 de setembro de 2008 – o discurso que o Papa pretendia dar na Universidade de Roma era uma defesa formidável da conexão indissolúvel entre fé e razão, entre verdade e liberdade: “Eu não venho impor a fé, mas exortar a ter coragem para a verdade”.

O paradoxo é que Bento XVI é um grande “iluminista” em uma época em que a verdade tem tão poucos admiradores, e a dúvida está no comando, ao ponto de se querer silenciar a verdade.

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A terceira acusação sistematicamente lançada contra Bento XVI é a de que ele seria um tradicionalista preso ao passado, um inimigo dos novos desenvolvimentos trazidos pelo Concílio Vaticano II.

Seu discurso à Cúria Romana em 22 de dezembro de 2005 sobre a interpretação do Concílio, e em 2007 sobre a liberalização do rito antigo da Missa são apontados como as provas nas mãos dos acusadores.

Na realidade, a Tradição à qual Bento XVI é fiel é aquela da grande história da Igreja, de suas origens até nossos dias, que não tem nada a ver com um apego formalista ao passado. No discurso à Cúria mencionado, para exemplificar a “reforma em continuidade” representada pelo Vaticano II, o Papa recordou a questão da liberdade religiosa. Para afirmá-la completamente – ele explicou – o Concílio precisou retornar às origens da Igreja, aos primeiros mártires, àquele “profundo patrimônio” da tradição cristã que nos séculos recentes havia sido perdido, e foi reencontrado, graças em parte à crítica da razão iluminista.

Quanto à liturgia, se existe um autêntico perpetuador do grande movimento litúrgico que floresceu na Igreja entre os séculos dezenove e vinte, de Prósper Guéranger a Romano Guardini, é justamente Ratzinger.

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Uma quarta linha de ataque segue a mesma linha da anterior. Bento XVI é acusado de atrasar o ecumenismo, de colocar a reconciliação com os Lefebristas acima do diálogo com outras confissões Cristãs.

Os fatos, entretanto, dizem o oposto. Desde que Ratzinger foi feito Papa, a jornada de reconciliação com as Igrejas Orientais tem dado passos extraordinários. Tanto com as Igrejas Bizantinas, que respondem ao patriarcado ecumênico de Constantinopla, e – mais surpreendentemente – com o patriarcado de Moscou.

E se isto ocorreu, foi precisamente por causa da reavivada fidelidade à grande Tradição – desde o primeiro milênio – que é uma característica deste Papa, além do que é a alma das Igrejas Orientais.

Do lado do Ocidente, novamente o amor pela Tradição é que está levando pessoas e grupos de comunhão anglicana a pedir para ingressar na Igreja de Roma.

Já quanto aos Lefebristas, o que está impedindo a sua reintegração é exatamente o apego deles às formas passadas da Igreja e da doutrina erroneamente identificadas como Tradição perene. A revogação da excomunhão de quatro de seus bispos, em Janeiro de 2009, nada fez quanto ao estado de cisma no qual eles permanecem, da mesma forma que em 1964 a revogação das excomunhões entre Roma e Constantinopla não curou o cisma entre Oriente e Ocidente, mas tornou possível um diálogo visando à unidade.

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Os quatro bispos Lefebristas cuja excomunhão Bento XVI levantou incluíam o inglês Richard Williamson, um antisemita e negador do Holocausto. No rito antigo liberado, há até mesmo uma oração para que os judeus “possam reconhecer Jesus Cristo como salvador de todos os homens”.

Estes e outros fatos ajudaram a alimentar protestos persistentes no mundo judaico contra o atual Papa, com pontos significantes de radicalismo. E é uma quinta linha de acusação.

A última arma deste protesto foi uma passagem de um sermão pregado na Basílica de São Pedro na Sexta-Feira Santa, na presença do Papa, pelo Pregador da Casa Pontifícia, Pe. Raniero Cantalamessa. O trecho incriminador foi uma citação de uma carta escrita por um Judeu, mas apesar disso o furor foi na direção exclusivamente do Papa.

E no entanto, nada é mais contraditório que acusar Bento XVI de inimizade com os judeus.

Nenhum outro Papa antes dele foi tão longe ao definir uma visão positiva de relacionamento entre a Cristandade e o Judaísmo, deixando intacta a divisão essencial sobre se Jesus é ou não o Filho de Deus. No primeiro volume de seu “Jesus de Nazaré” publicado em 2007 – e perto de ter completado o segundo volume – Bento XVI escreveu páginas esplêndidas a esse respeito, em diálogo com um Rabino americano ainda vivo.

Muitos judeus veem Ratzinger de fato como um amigo. Mas na mídia internacional, a coisa é diferente, o que se vê é praticamente e exclusivamente “fogo amigo” partindo dos judeus chovendo no Papa que melhor os entende e os ama.

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Finalmente, uma sexta acusação – bastante atual – contra ratzinger é que ele teria “encoberto” escândalos de sacerdotes que abusaram sexualmente de menores.

Aqui, da mesma forma, a acusação é contra o mesmo homem que fez mais que qualquer outro na hierarquia eclesiástica para sanar este escândalo, com efeitos positivos que já podem ser vistos aqui e acolá, em especial nos Estados Unidos, onde a incidência do fenômeno em meio ao clero católico tem diminuído de forma significante nos últimos anos.

Mas onde a ferida ainda está aberta, como na Irlanda, foi novamente Bento XVI que pediu que a Igreja daquele país se pusesse em um estado de penitência, uma exigência que ele formulou em uma carta pastoral sem precedentes em 19 de março último.

O fato é que a campanha internacional contra a pedofilia tem somente um alvo hoje, o Papa. Os casos desenterrados do passado o são sempre com a intenção de ligá-los a ele, tanto quando era Arcebispo de Munique quanto quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, além do tempo em Ratisbona pelos anos em que o irmão do Papa, Georg, dirigiu o coral infantil da catedral.

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As seis linhas de acusação contra Bento XVI só levantam uma questão.

Porque este Papa está sob constante ataque, de fora da Igreja, mas também de dentro, apesar de sua inocência óbvia com respeito às acusações?

O início da resposta é que ele está sistematicamente sob ataque justamente pelo que ele faz, pelo que ele diz, e pelo que ele é.
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7 Responses leave one →
  1. 2010 abril 8

    Muito boa matéria. Concordo plenamente. Tudo isto só nos leva a recordar as fortes palavras de Jesus; que nem as portas do inferno prevaleceriam contra a sua Igreja. Assim seja. Tudo isso na verdade faz parte da nossa cruz como Igreja também. Faz parte da história desta Igreja fundada por Deus… Se não acontecessem tais acusações, perseguiçoes… seria de se estranhar… Contra quem o Inimigo vai lutar, a quem ele vai tentar? Contra a obra de Deus, naturalmente… contra seus sacerdotes e seu povo. Que Deus tenha misericórdia de nós e proteja o Santo Padre a quem devemos respeito e obediência. Um fraternal abraço.

  2. 2010 abril 9

    Sugestão: que tal falarmos um da pedofilia de pastores protestantes envagelicos.vem crescendo no Brasil e nos países onde acusam a igreja católica.um grande abraço e a paz de CRISTO.

  3. 2010 abril 9
    Célia permalink

    Voces se esquecerem do episodio lamentavel da midia internacional, quando o Papa disse ,na Africa , que os preservativos ajudam a aumentar casos de aids no mundo!
    Deus fortaleça nosso pontifice , nosso farol em noite escura de tempestades no mar!

  4. 2010 abril 9
    RAFAEL QUEIROZ permalink

    “o inglês Richard Williamson, um antisemita e negador do Holocausto”

    Essa afirmação é ridícula!Willianson não é antisemita nem nega o holcausto apenas o relativiza.

    A matéria é boa mas peca por tentar identificar o Papa com um certo progressismo e com um certo iluminismo para tentar agradar o espírito do tempo;é como se o Magister quisesse dizer :”Olha o Papa não é tão conservador , ele é até bastante progressista!Portanto parem de importuná-lo pois ele está ao lado do “progresso” da “modernidade”…”

    Nada mais falso: o Papa já deixou claro que seus objetivos não se coadunam em nada com os do espírito progressista de nossa época.

    Tentar salvá-lo da pecha de conservador para preservar sua boa imagem ante o mundo é dar um tiro no pé.

    A escritura já diz : quem é amigo do mundo é inimigo de Deus.
    A atitude correta está não nesse diálogo irenista com o mundo mas na apresentação clara da verdade revelada a uma civilização que não quer mais ouvir falar de Deus.

    São João já disse que “o mundo jaz no maligno”, e Jesus que “meu reino não é deste mundo”…por que então tanta preocupação com a recuperação da imagem do Papa na “opinião pública” ?

    A opinião pública não tem valor nenhum…enquanto cristãos como o Sandro Magister se dobrarem a ela tentando oferecer uma imagem aceitável e simpática do Papa e da Igreja a crise que corroi a vida eclesial hoje continuará …e esta crise é resultante desta tentativa insana de fazer Igreja e mundo encontrar-se sem conflito o que é impossível!

    O conflito entre estas duas realidades é ontológico , inescapável.Só se resolverá no dia do Juízo.Até lá como disse Jesus não haverá paz mas dissenssão; ele disse que não veio trazer a paz mas a espada , a divisão e o fogo.O que passar disso vem de satanás, o que quiser tornar possível um cristianismo que não incomode o mundo terá aderido ao Anticristo.

    O Papa convenhamos não é nada simpáticoe não devemos tentar fazer com que pareça; assim como Jesus não foi e não é.Justamente a antipatia que eles causam ao mundo é o selo da vercidade divina de suas missões!

  5. 2010 abril 9
    Roberto permalink

    Bom dia. “Paz a esta casa.” São Mateus 10, 12

    Em parte o Rafael Queiroz tem razão: nosso Papa não é progressista, muito menos iluminista, embora tenha abrandado os ímpetos dos conservadores que o achavam restaurador, principalmente de uma única liturgia. Não. Este magnífico Papa é um conciliador da Igreja! Ele está fazendo uma colcha de retalhos com os cristãos de várias “tendências”. Depois pretende torná-la inconsutil, como a túnica do Senhor.
    Só que antes o mundo terá que crucificá-lo!
    Crucificá-o! Crucifica-o! É o que está bradando o mundo.
    Ele está assumindo a sua cruz, sem covardia. E salmodiando o 22 …
    E nós, que faremos? Vamos lançar a sorte, como os soldados romanos? Martelar o prego?

    Pax Domini.

  6. 2010 abril 9
    Teresa permalink

    Gosto muito do Sandro Magister mas realmente dessa vez concordo com o Rafael Queiroz. Não adianta ficar adoçando a pílula pro mundo gostar, não. Deus não age assim. Ele é verdadeiro, doa a quem doer. Prova disso, que permitiu toda essa sujeira aparecer diante do mundo e humilhar, envergonhar, ridicularizar todos os membros da Igreja, até o Santo Papa.
    Eu realmente estava com muita compaixão por ele, por estarem usando tudo isso pra atacá-lo, mas acho que já não estou mais tão apiedada assim. Não que ele não mereça nossa piedade mas é que todos nós católicos, de alguma forma estamos sofrendomuitos com tudo isso, e não só o Papa. Só Deus sabe quem realmente sofre mais, quem é mais inocente e quem merecia menos essa vergonha toda, e esse ódio e perseguição que estamos sofrendo (e que ainda vamos sofrer).
    No entanto é preciso que não só nos sintamos massacrados injustamente mas também que nos indignemos com todos esses acontecimentos, que nos indignemos e choremos porque vitima mesmo são as crianças e jovens, alguns surdos, outros órfãos, muitos crentes… que foram escandalizados em sua confiança, em sua pureza, em sua ideia de Deus.
    Ainda que hajam calúnias e exageiros, houve tambem pecados gravissimos, cometidos por padres, por bispos. Meu Deus! “Antes lhes tivessem amarrado uma pedra no pescoço e jogado-os no fundo do mar”. E essas voces sabem, não são palavras minhas, ira minha, puritanismo meu. É o proprio Senhor que se indignou antecipadamente.
    Se alguem minimizou o problema, achou que não era da sua conta, não estancou imediatamente a sangria inocente que corria, tomou medidas paliativas e arriscadas , pôs em risco outras crianças, esse alguem seja o Papa ou não, errou gravemente, e não podemos negar isso.
    Há coisas urgentes que exigem medidas urgentes, há denuncias de todos os tipos chegando na Igreja, desde desrespeitos litúrgicos, apoios de eclesiasticos a aborto, omissões e intromissões inconvenientes de conferencias episcopais, livros heréticos vendidos por editoras católicas, mentiras e heresias ensinadas livremente nas paroquias, seminarios e universidades catolicas, sacrilegios e pedofilia. E que atenção a tudo isso é dada?
    Não é mais possivel burocratizar soluções, isso é falta de zelo pelo rebanho de Deus.
    De certo que o Papa Bento XVI é um dos melhores e mais conscientes e atentos que tivemos, mas é a ele que cabe confirmar ou corrigir a todos não é?
    O e-mail da nunciatura recebe, segundo eles mesmos informam, oitocentos e-mails por dia ( isso antes dos ultimos escandalos ) e por serem muitos, dizem que simplesmente não lêem.
    Coisas como estas demonstram bem como a Igreja deve repensar seu comportamento e atitudes concretas alem, é claro, de buscar as causas de toda a entrada que foi dada ao inimigo de Deus e dos homens. Ele está dentro, e é preciso que saia. E quem melhor que o chefe da casa pra expulsar o inimigo da sua família?
    Que o Santo Papa não se abata mas possa , pela graça de Deus, transformar tudo isso em força de ação e transformação, pois se no tempo de são francisco a Igreja precisava ser reconstruida, agora, mais do que nunca está clamando por isso

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  1. Deus lo Vult! » Ainda em defesa de Bento XVI

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