Não à civilização do grito e do barulho

2010 fevereiro 25
by Rafael Vitola Brodbeck

Que época barulhenta a nossa. Jovens gritam mais do que antes. Os próprios adultos, comportando-se de modo irracional e “macaquesco”, parecem não ter consciência de sua maturidade biológica, e agem como adolescentes. As diversões quase todas são barulhentas. E se antes ouvíamos som alto em casa ou no carro fechado – confesso, gosto de rock, blues, jazz e música campeira em volumes mais expressivos –, agora somos obrigados a ouvir pelas ruas, nos carros com porta-malas abertos e vidros baixos – e não o bom rock, o bom blues, o bom jazz e a boa música campeira, mas os terríveis axés, pagodes, forrós, tchês e pseudo-funks.

Os escritórios e gabinetes de trabalho são barulhentos. As pessoas ainda têm a mania de andar sempre com aparelhos de mp3 nos ouvidos, sempre desatentas ao mundo. Fora a mal-educada cultura de serviços de telemarketing em sempre interromper o justo sossego com ofertas imperdíveis. Aliás, já que tocamos em oferta, quem não se estressa com as propagandas de certas lojas na TV, em que até a fala é “gritada”, e parece que os anunciantes estão se “esganiçando”, como dizemos no sul?

Tal fato não é produto do acaso. Vivemos em uma sociedade que tem por base ideológica o esquecimento do pensamento e o desprezo da própria consciência. “É proibido proibir”, diziam em 1968, e isso forjou toda uma geração. Desejando tolher aquela que mais proibiria – a consciência –, as pessoas passaram a refugiar-se no barulho. O grito é o modo mais eficaz de inibir a auto-reflexão, de impedir que a voz da consciência nos diga o que fazer o que não fazer. Gritando, submetendo-me ao barulho diuturno, vivendo em um ritmo frenético entre trabalho e lazer agitado e, quando estou em casa, com a novela ou o filme ou o jornal sempre ligados, calo a consciência. Impeço-a de me proibir, de me pautar, de me fornecer os dados necessários de uma moral objetiva para meu comportamento. Se a consciência e a moralidade tentam falar comigo, enclausuro-me no barulho para que não ouça sua voz. A suavidade da voz da consciência é nublada pela ensurdecedora algazarra moderna. Como C.S. Lewis, autor das Crônicas de Nárnia, fazia soar pela boca do diabo-tio ao diabo-sobrinho, em forma de “conselho”: quando alguém está perto de pensar em Deus, distrai-o com qualquer coisa… E o barulho faz isso!

É muito sintomático. Nossa sociedade, ao abandonar seus valores mais profundos de cristianismo e moral, está doente. E o remédio, que é o silêncio, é escondido justamente para que de nossos males não nos curemos. Um triste “dilema Tostines”: estamos eticamente doentes porque gritamos e não queremos a quietude, ou gritamos e não queremos a quietude porque estamos eticamente doentes?

O que me deixa assustado é perceber que mesmo aqueles locais em que se poderia encontrar uma esperança parecem aderir aos costumes do tempo. Quantas e quantas igrejas são abertas, em cada esquina, que, a pretexto de louvar a Deus, despejam toneladas de decibéis em nossos ouvidos, como se Cristo fosse surdo para ouvir os clamores dos que se lhe pretendem fiéis!

E até mesmo nas igrejas católicas do Brasil, nem sempre encontramos a paz exterior que tanto conduz à paz interior. Contrariando a tradição da Igreja e as próprias determinações do Papa, o que é mais tristemente comum em nossas liturgias é o terrível espalhar de “bateção de palmas”, de gritos aleluiáticos, de sermões aos berros! O coro gregoriano, a melodiosa polifonia, e mesmo os cantos populares mais sóbrios e tradicionais, foram substituídos, mesmo que em flagrante desobediência às normas litúrgicas que nos chegam de Roma, por bandas de pop-rock, com suas guitarras, baterias e violões estridentes, com seus microfones altíssimos, com suas músicas agitadas e que fazem o povo pular, não rezar. Letra religiosa não é sinônimo de profundidade espiritual nem de calmaria. Sem falar dos “vamos saudar a Cristo com uma salva de palmas”, tornando a adoração a Deus, que deveria ser, conforme o Evangelho, em espírito e em verdade, em uma festa mundana, com critérios profanos. A falsa alegria, outrossim, substitui a piedosa e lenta recitação do terço, o diálogo alegre e superficial toma o lugar do confessionário, a oração gritante e acompanhada de palmas e bateria ocupa o que antes eram as horas tranqüilas em frente ao sacrário. É Adélia Prado, a grande poetisa brasileira, que fala que precisa sair da igreja para rezar?

Ensina D. Antônio Vitalino, Bispo português, que

“a atitude de escuta e o silêncio (…) fazem parte da oração autêntica” e que “vivemos num tempo de barulho, de palavreado, de demagogia, de processos infindáveis, em que os sofismas das palavras procuram escamotear e ocultar os fatos, criando realidades virtuais contra as vítimas reais”.

Sirva esta Quaresma para buscar o silêncio. Mas, como, se em nossos templos nem sempre a ajuda necessária está à disposição?

13 Responses leave one →
  1. 2010 fevereiro 26

    Aleluiático foi Ó-TE-MO! Adorei!

    Bom, Rafa, vc não é o único a sofrer deste mal. Todos estamos padecendo. Meu marido mesmo sempre diz que não há necessidade de ter som em nosso carro. Pra quê? Se há Ns estações de rádio nos carros ao lado?
    Ninguém pergunta se vc tá afim de ouvir aquilo. Eles impõe e pronto. No ônibus, estes dias, juro que quase tirei o fone de ouvido de uma garota que ouvia um som horrível a trocentos decibéis lá pelas sete de manhã. Pô, se toca! Se ela ainda não tava acordada, eu já tava. Fala sério.

    E se as pessoas não conseguem fazer silêncio nem diante do Santíssimo Sacramento, o farão durante a Missa? Difícil, porém, não percamos a esperança, mas sim rezemos para que venha uma leva boa de Padres que priorizem o útil à Salvação das almas.

  2. 2010 fevereiro 26
    Sandra permalink

    A primeira vez que meu marido esteve no Brasil comentou comigo como o país era barulhento. Quando visitamos meus pais levamos na bagagem tampões de ouvido para poder dormir.

    Tenho cá comigo que as pessoas não querem ficar a sós com os próprios pensamentos porque não sabem o que fazer com eles.

    Não pense que aqui as coisas sejam muito diferentes. Os que estão sós fisicamente não o estão mentalmente. Tem sempre uma conversa no celular ou um ipod no ouvido.

    Já desisti de puxar conversa na fila do supermercado, na farmácia ou no banco. A reação das pessoas é a de que ou você está incomodando ou é doido de pedra. Parece que pra fazer amizade é preciso de uma carta de referência ou Q.I. – quem indica.

    Parabéns pelo texto.

  3. 2010 fevereiro 26
    Fabiano permalink

    Muito bom, Rafael. Belo e pertinente artigo.
    Por aqui, durante a Quaresma as palmas foram suprimidas na Missa! Mas é triste ouvir o padre se “justificando”, quase pedindo desculpas ao povo pela celebração mais sóbria e menos expansiva.

  4. 2010 fevereiro 26
    Leandro S. permalink

    Rafael, concordo com tudo o que você disse, mas não posso deixar de comentar: mesmo um bom rock, blues, jazz, música campeira, funk (o verdadeiro), disco, soul, música clássica, etc. INCOMODAM se forem impostos pelos outros que têm aparelhos de som mais potentes (esta de “não preciso de som no meu carro porque todos os outros já têm” da Evelyn foi ótima!).
    Sei que sua intenção não foi discriminar os ritmos menos eruditos (aliás, você esqueceu-se de citar: música evangélica, o hip-hop e o pseudo-sertanejo-pseudo-romântico-brasileiro-música-de-corno).

    Todo aquele que se esquece que o seu direito termina onde começa o do próximo já está incomodando. Minha esposa sempre diz que se mede o tamanho do cérebro do dono do som por uma regra inversamente proporcional ao volume da música que ouve (quanto mais alto mais idiota).

    Obs: é claro que eu gosto de ouvir minha musiquinha um pouco alta de vez em quando, mas isso sem incomodar o vizinho (é bom lembrar um bom fone de ouvido pode ser comprado por menos de R$ 40).

    Eu só não sei por que estamos fazendo este “protesto” aqui, no blog, afinal os cérebros pequenos que ouvem Deja-vu, Calipso, Éguinha Pocotó, etc. não entram neste blog. Aliás, não sei por que estamos fazendo este protesto por escrito, pois quem ouve este tipo de barulho geralmente nem sabe ler uma frase com mais de dois verbos…

    Um abraço fraternal!

  5. 2010 fevereiro 27
    Willian permalink

    Belo texto. Aqueles que deveriam falar são obrigados a se calarem. Enquanto os que deveriam se calar gritam. Principalmente, como destacou o texto, a gritaria contra a consciência e a moral. João Paulo II dizia que estamos vivendo a época do pecado contra o Espírito Santo, isto é, “o pecado de não ter pecado”. O ser humano não deixa a Graça agir, pois a ignora. O Espírito então não age, não por que ele não quer, mas por que não deixamos. O coração de um homem assim, é o único lugar onde Deus não pode entrar, pois é como um quarto, que está trancado por dentro.Também, aproveito para anunciar meu novo blog, do qual vários seminaristas, do Brasil inteiro, contribuem com suas reflexões filosóficas e teológicas. Fizemos isso, movidos pelo pedido de nosso querido Pastor, Bento XVI que impulsiona a Evangelização pelos meios de comunicação. Agradeço as visitas. Aqui vai nosso blog: ecclesiammeam.blogspot.com

  6. 2010 fevereiro 28

    pseudo-funks?

  7. 2010 março 1
    Rafael Vitola Brodbeck permalink

    Giovani, sim, pseudo. O funk de verdade não tem nada a ver com isso do “funk carioca”. Funk mesmo é legal: George Clinton, Parliament, o grande Earth, Wind & Fire, Tina & Ike Turner, James Brown, e, no Brasil, Monobloco, Farofa Carioca, Funk como le Gusta etc.

  8. 2010 março 1

    Foi bom explicitar no texto. Realmente, apesar de não ser fã, quando garoto gostava de ouvir esses exemplos que citastes na Rádio Mundial do RJ. Não falavam “funk”, mas ritmos de boate ou “discoteca”.

    Agora estes funks nacionais, confesso nunca ter ouvido. Já os pseudos… é uma praga disseminada de norte a sul, que estrupa nossos ouvidos sem dó nem piedade.

  9. 2010 março 3
    Luís Guilherme permalink

    O primeiro disco do J. Quest é funk total. Outro grupo de funk bacana é o Tower of Power.

  10. 2010 março 6
    Marcos permalink

    Falando em funk legal, não podemos esquecer da grande banda KOOL & THE GANG, da qual eu sou muito fã!

  11. 2010 março 7
    Rafael Vitola Brodbeck permalink

    Funk decente também, no Brasil, é Tim Maia, Jorge Benjor, Sandra de Sá, Ed Motta, e o grande Tony Tornado (”É isso aí, amizade!”) hehehe

  12. 2010 abril 4
    Marta Ordoñez permalink

    Apesar da agitação típica da sociedade moderna, devemos dedicar nosso tempo em meditar nas águas plácidas do nosso pensamento e não importa o lugar. Isso facilita a nossa vida e a vida em sociedade. Felicidades a todos!

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  1. Deus lo Vult! » En passant

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