O erro racionalista e a reforma litúrgica

2009 dezembro 7
by Rafael Vitola Brodbeck

Quando se fala em algumas impropriedades da forma moderna do rito romano, é comum levantar-se o argumento de que não se observou o princípio do desenvolvimento harmônico da liturgia, ou o de que, em nome de uma suposta pureza do rito, a partir de um erro denominado “arqueologismo”, eliminou-se uma série de acréscimos (legítimos!) de origem galicana ou mesmo oriundos da piedade individual. Tudo isso está absolutamente certo, é verdade, mas creio que um outro viés deveria ser mais trabalhado: o de que alguns aspectos da reforma litúrgica levada a cabo por Mons. Anibale Bugnini, e sua implantação prática nas paróquias, foram influenciados pelo racionalismo.

O sacerdote australiano Pe. John Parsons, vivamente empenhado na chamada “reforma da reforma”, explica, em um apêndice da grande obra do Pe. Thomas M. Kocik sobre o tema, o quanto o racionalismo está na gênese da ânsia por uma Missa “ideal”. De fato, o idealismo das formas “puras” corresponde à mesma matriz ideológica do racionalismo, do Iluminismo, que rechaça a tradição por vê-la envolvida no que entende ser um repositório de superstições.

Ademais, certas simplificações feitas por Bugnini não estavam na linha da eliminação de duplicidades superficiais pedida pelo Concílio, mas obedeciam a uma agenda que não conseguia entender o valor dos símbolos, dos sinais. Se o homo modernus não entende os símbolos profundos da liturgia romana tradicional, eles devem ser retirados: eis o mote que acompanhou boa parte dos executores da reforma. Ora, isso é uma sandice. Então, em um país de esmagadora maioria de analfabetos, iríamos eliminar as letras, os sinais de pontuação, a gramática? Se a resposta ao analfabetismo é a alfabetização, a resposta a um século que não lê os símbolos é ensinar-lhes o seu significado, não propor seu banimento!

O homem advindo do racionalismo não entende os símbolos, não é capaz de aprofundar no belo, vê o fausto e o esplendor como farisaísmo estéril ou triunfalismo e, diante desse quadro, certos membros do Concilium de Bugnini, propuseram o aniquilamento de tudo aquilo que a modernidade não entenderia. Daí, a exclusão dos altares laterais, a falta de ênfase no dogma da transubstanciação, a eliminação de certos sinais que davam o claro caráter sacrifical da Missa, a mentalidade de que a liturgia bem feita excluiria a devoção popular, a obrigatoriedade prática de celebrar versus populum, o impedimento de recitar o Cânon em vox submissa, a verdadeira cruzada contra o latim etc.

Com efeito, embora muitos desses pontos não estejam presentes no código de rubricas do Missale Romanum de 1970, estavam no ethos dos que implementaram a reforma. O racionalismo é a origem de muitas daquelas posturas já identificadas com o arqueologismo litúrgico.

Para o racionalismo, disseminado mesmo entre católicos a partir do jansenismo do século XVIII – e o herético Sínodo de Pistóia, com suas proposições litúrgicas condenadas, está aí para provar –, a multiplicação de altares laterais era produto do sentimentalismo, as Missas votivas eram uma forma de superstição, o Cânon em silêncio um obscurantismo, o padre a celebrar versus Deum estaria “de costas para o povo” – eis aqui também uma distorção dos valores democráticos. Tudo isso deveria ser reprimido.

Finalmente, após a primeira e a segunda fases do movimento litúrgico de Dom Guéranger, OSB, que muito contribuíram para uma vivência mais apurada, entre os fiéis, do dom de nossa liturgia romana, os racionalistas, imbuídos desses conceitos amalgamados com um estilo peculiar de catolicismo, e alimentados pelo arqueologismo, propuseram sua revolução. Foi a terceira fase do movimento litúrgico que, ao lado de excelentes contribuições, que nos deram os valiosos pontos positivos da reforma de Paulo VI (como um maior ciclo de leituras bíblicas no lecionário, a possibilidade de se usar canto gregoriano e incenso mesmo em Missas rezadas, um tesouro de hinos, antífonas, coletas e prefácios pré-tridentinos e que não constavam do Missal compilado por São Pio V, a procissão do ofertório, um mais amplo uso do vernáculo, a ênfase no gregoriano como canto oficial do rito romano, a restauração das preces dos fiéis, a recolocação do Ite Missa est para depois da bênção, a homilia ou sermão como cerimônia integrante da liturgia e não uma interrupção da Missa, a simplificação na gradação de festividades, a mudança mesmo em Missas simples e rezadas, como ensina o Mons. Peter Elliott, de um tablado restrito no qual ficava o padre para um espaço aberto de celebração no presbitério, etc), trouxe enormes desvantagens ao culto católico. Esses racionalistas e arqueologistas se aproveitaram das diretivas do Concílio Vaticano II e da depressão de Paulo VI, ocasionada por sua quebra de autoridade diante de um episcopado rebelde que não aceitou sua reafirmação da ortodoxia em matéria de moral sexual, e da sua confiança nos oficiais do comitê para a reforma litúrgica, para colocar o cavalo de Tróia dentro dos muros da Igreja.

Não fosse o corajoso basta de Paulo VI, impedindo uma revolução ainda maior na liturgia, e desautorizando mudanças mais radicais que Bugnini – que foi mandado por Paulo VI para o Irã, em um ato que foi interpretado por cardeais mais ortodoxos como uma punição – e seus sequazes tentavam fazer passar, estaríamos hoje diante de um seco, frio e absolutamente racionalista culto católico.

A reforma teve elementos racionalistas, mas graças a Deus e ao Papa Paulo VI – e depois às correções de João Paulo II –, não tantos quanto os modernistas queriam. Todavia, se na própria reforma litúrgica, o radicalismo dos racionalistas foi barrado, na sua implementação em nossas paróquias, a crise atingiu proporções apocalípticas.

A frieza racionalista caiu como uma bomba no dia-a-dia dos fiéis católicos: de uma hora para outra, houve padres que até mesmo retiraram não só os altares laterais como removeram todas ou quase todas as imagens dos santos das igrejas; o órgão foi banido e trocado pelos violões da música romântica e folk; as piedosas letras dos cantos gregorianos, das polifonias sacras de forte inspiração bíblica, e dos cânticos populares mais tradicionais foram substituídas por outras de gosto duvidoso; o celebrante deu as caras para o povo como se fosse um animador de auditório – e, de fato, poucos são os padres que conseguem manter a concentração e a piedade versus populum. Com o tempo, a casula foi abandonada, à revelia das normas que obrigavam ao seu uso, os paramentos adquiriram uma simplicidade que beirava ao simplório e sem aquela nota de sacralidade e distinção próprias de nossa visão católica das coisas.

Claro que essas coisas todas na implementação da reforma não estavam por esta prevista. Em nenhum momento, mandou a Igreja que se aposentasse o canto gregoriano, a casula, as seis velas nas Missas solenes, o latim… Ocorre que o racionalismo não estava presente somente nas novas normas, mas em toda uma mentalidade que, ignorando as sadias normas que procuravam manter um mínimo de nossa tradição litúrgica romana, radicalizava a reforma. Não contentes com as rubricas, que já não estavam recheadas de arqueologismo e simplificações em demasia, os revolucionários fizeram, em cada paróquia, a sua própria reforma.

Se o novo rito tinha alguns defeitos, o modo como muitos o colocaram em prática foi ainda pior. Não se nega que há problemas na reforma litúrgica, porém o que temos em nossas igrejas não é culpa da reforma e nem mesmo pode ser chamado de Novus Ordo, de Missa nova: é uma sua distorção.

É bem possível celebrar a Missa do rito novo com toda a sobriedade e sacralidade, com canto gregoriano, incenso, versus Deum, toda ela em latim etc, atestando a continuidade do Missale de Paulo VI com o rito romano clássico. Sem embargo, não se pode negar a presença, como atestado, da mentalidade racionalista, ainda que ela esteja muito mais na criminosa implementação que alguns padres e Bispos puseram em marcha contra as orientações dos Papas e as normas de Roma.

Uma eventual e necessária “reforma da reforma”, que coloque como ponto de partida a co-existência dos dois ritos, o novo e o antigo, o moderno e o tradicional, e propugne, em harmônico desenvolvimento, por um acréscimo dos elementos positivos do Missal de Paulo VI ao Missal clássico de São Pio V, em uma unificação da liturgia romana, não poderá desconsiderar também a rejeição da ideologia por trás dos pontos negativos do novo Ordinário. E nessa ideologia, não poucos pontos da filosofia racionalista estão presentes.

5 Responses leave one →
  1. 2009 dezembro 9

    Rafael, salve Maria.

    Escrevi um texto de apoio a você em meu blog. Eis minhas palavras:

    Amigos, salve Maria.
    Quando alguém tem a coragem de denunciar publicamente os aspectos negativos da missa nova este alguém merece sempre o nosso apoio. Ainda mais quando este alguém sempre se destacou pela defesa incondicional desta abominação! Aí então é que nós devemos apoiar mais ainda.
    Refiro-me ao senhor Rafael Vitola Brodbeck, do site Veritatis Splendor, que acaba de publicar um artigo que eu considero bastante verdadeiro (embora tenhamos as indispensáveis ressalvas), e que nos leva a concluir que o autor é, no mínimo, uma pessoa sincera (tomara que não nos enganemos). O título do trabalho é “O erro racionalista e a reforma litúrgica” e foi publicado no blog do Veritatis. Eis o link:
    http://blog.veritatis.com.br/index.php/2009/12/07/o-erro-racionalista-e-a-reforma-liturgica/
    Neste trabalho está apontada, de forma bastante didática e acessível até mesmo ao leitor menos familiarizado com o tema, a principal causa da baderna liturgica, a saber: uma missa fabricada com principios racionalistas (portanto anti católicos) e colocada em prática de forma muito mais radical pelos modernistas. Ou seja, o que era ruim (a forma como foi feita) ficou muito pior (a maneira como foi aplicada).
    E neste texto de Rafael existem algumas confissões que dão o que pensar, principalmente porque feitas por um defensor ferrenho do Vaticano II e da missa nova (talvez não mais tão ferrenho…). Eis os trechos que destaco. Primeiro diz o autor:
    “(…) creio que um outro viés deveria ser mais trabalhado: o de que alguns aspectos da reforma litúrgica levada a cabo por Mons. Anibale Bugnini, e sua implantação prática nas paróquias, foram influenciados pelo racionalismo”.
    “(…) Se o homo modernus não entende os símbolos profundos da liturgia romana tradicional, eles devem ser retirados: eis o mote que acompanhou boa parte dos executores da reforma. Ora, isso é uma sandice”.
    “Com efeito, embora muitos desses pontos (os abusos feitos posteriormente, acrescento eu)não estejam presentes no código de rubricas do Missale Romanum de 1970, estavam no ethos dos que implementaram a reforma. O racionalismo é a origem de muitas daquelas posturas já identificadas com o arqueologismo litúrgico”.
    “Esses racionalistas e arqueologistas se aproveitaram das diretivas do Concílio Vaticano II e da depressão de Paulo VI, (…) para colocar o cavalo de Tróia dentro dos muros da Igreja”.
    “A reforma teve elementos racionalistas, mas graças a Deus e ao Papa Paulo VI – e depois às correções de João Paulo II –, não tantos quanto os modernistas queriam”.
    “Ocorre que o racionalismo não estava presente somente nas novas normas, mas em toda uma mentalidade que, ignorando as sadias normas que procuravam manter um mínimo de nossa tradição litúrgica romana, radicalizava a reforma.
    “Se o novo rito tinha alguns defeitos, o modo como muitos o colocaram em prática foi ainda pior. Não se nega que há problemas na reforma litúrgica, porém o que temos em nossas igrejas não é culpa da reforma (?) e nem mesmo pode ser chamado de Novus Ordo, de Missa nova: é uma sua distorção”.
    “Sem embargo, não se pode negar a presença, como atestado, da mentalidade racionalista (da missa nova, acrescento eu), ainda que ela esteja muito mais na criminosa implementação que alguns padres e Bispos puseram em marcha contra as orientações dos Papas e as normas de Roma”.
    “Uma eventual e necessária “reforma da reforma”, (…) não poderá desconsiderar também a rejeição da ideologia por trás dos pontos negativos do novo Ordinário. E nessa ideologia, não poucos pontos da filosofia racionalista estão presentes”.
    Amigos, as palavras ditas pelo senhor Rafael Vitola Brodbeck são tão incríveis que custamos a crer que foram escritas por ele. Claro que poderíamos comentar cada uma das passagens aqui simultaneamente colocando textos onde a Igreja ensina claramente que ela é infalível quando codifica uma missa, e que se existe um “ethos” racionalista que foi colocado em prática tanto na formulação como em na implantação desta missa é porque este ato não poderia jamais ser feito pela Igreja Católica Apostólica Romana, mãe e mestra infalível da verdade, a qual queremos sempre estar unidos e não nos separarmos jamais. Igreja esta que por missão divina sempre nos leva para o que é verdadeiro e belo, e que jamais nos aponto para caminhos pedregulhosos e feios.
    Uma missa católica não pode ser concebida com uma mentalidade anti católica, isso é impossível em absoluto. Cristo nos deixou a missa, os apóstolos a celebraram e a ensinaram e a Igreja ao longo dos séculos codificou suas mais variadas expressões, todas verdadeiras e belas, todas verdadeiramente belas! Logo, sempre a missa é o céu na terra, ela sempre é a mais pura expressão da fé e como nos ensinou um teólogo a forma com que a missa é celebrada doutrina mais os fiéis do que mil catecismos e palestras. Porque nela está a teologia católica explanada no culto perfeito a Deus (e o único que Ele aceita), nela está a teologia católica de forma inerente.
    É com alegria que aqui escrevo, parabenizando o senhor Rafael Vitola Brodbeck, não deixando de manifestar publicamente o meu apoio a ele por estar percebendo os “defeitos” do novo missal, o “ethos” que o move. E somente com os católicos percebendo esta realidade poderemos estar enfim unidos em um movimento de resistência verdadeiramente católico, tal como os santos resistiram no passado diante das mazelas impostas seja lá por quem fosse.
    Imitemos os santos. Estudemos a vida deles e vejamos como eles agiram e reagiram.
    Parabéns, Rafael!
    Sandro Pelegrineti de Pontes

    Fonte:http://cumexapostolatusofficio.blogspot.com/2009/12/rafael-vitola-brodbeck.html

    Abraços,

    Sandro de Pontes

  2. 2009 dezembro 9
    Rafael Vitola Brodbeck permalink

    Meu caro Sandro,

    Obrigado pelas elogiosas, gentis, caridosas e honestas palavras. Sim, honestas, pois esta é uma tua característica, que te distingue de outros.

    Todavia, faço um reparo: eu, quando defendia E DEFENDO a Missa Nova, faço-a na questão da validade, da licitude, da legitimidade. Sempre apontei que é a Missa “normativa” e que é ortodoxa, pois é o rito da Igreja e usado não só pelo Papa como pela virtual totalidade dos Bispos há quarenta anos. Ao lado disso, entretanto, nunca deixei de asseverar que, na intenção dos reformadores e mesmo na execução da reforma, havia defeitos. Esses pontos negativos sempre defendi que sejam expurgados para uma “reforma da reforma”, como pedia João Paulo II e pede Bento XVI.

    Continuemos rezando e trabalhando, ainda que discordemos um do outro em vários pontos.

    In Christo et Matre,

  3. 2009 dezembro 13
    Felipe Cruz - Campinas permalink

    Rafael, a Missa Nova pode ser válida mas é ilícita; infringe todas as diretivas dos Papas anteriores à Paulo VI, vai contra o que foi unânimemente mantido até mesmo no modernista Concílio Vaticano II, assim como desobedece à Bula Quo Primum Tempore, proclamada pelo valente São Pio V, e por ele validada por todo o sempre.
    Sugiro que se informe sobre o tema ao invés de ficar na defensiva, temeroso de apontar os errantes; leia obras sobre o assunto, como O Reno se lança no Tibre ou Iota Unum , obra elevadíssima, e mais clara e completa exposição das mudanças.
    Quem atacava a Tradição Católica, os tradicionalistas e principalmente a FSSPX, está dando com os burros n’água, pois o respeito e a consideração mostrados por Bento XVI para com a Fraternidade são sinais de que está vendo um retorno à tradição, o que significa que a novus desordum está perdendo terreno mesmo.
    Abraços,
    Felipe Cruz

  4. 2009 dezembro 15
    João Marcos permalink

    Felipe,

    Vc se esquece de um pequeno detalhe: a liturgia da missa consiste de uma parte imutável, por instituição divina, e de uma mutável, que pode e deve ser mudada ao longo do tempo, de acordo com a necessidade da Igreja e em resposta aos novos desafios que se lhe apresentam.

    O que foi alterado no Concílio Vaticano II tem relação com as partes mutáveis. Se a alteração foi exagerada, isso são outros 500, mas fato é que a alteração da parte mutável, respeitando o desenvolvimento orgânico da liturgia, é plenamente possível, inclusive derrogando normas anteriores.

    Seria bom que vc estudasse a Encíclica Mediator Dei, de Pio XII, que fala muito sobre isso. Aliás, o contexto deste documento é bem parecido com o de hoje: de um lado, os modernistas querendo uma revolução litúrgica; de outro, os tradicionalistas querendo ressuscitar aspectos já superados na liturgia, desrrespeitando as normas vigentes.

    Té mais

    João Marcos

  5. 2009 dezembro 23
    Felipe Cruz - Campinas permalink

    João,
    As mudanças recentes na liturgia sequer foram propostas durante o Vaticano II. Foram perpetradas por Paulo VI, cinco anos após o encerramento do concílio, contrariando as orientações dos padres conciliares.
    A Sagrada Liturgia não tem partes mutáveis no sentido que sugere, e sim móveis. Os aspectos superáveis da liturgia já o foram há cerca de catorze séculos. À cinco séculos, São Pio V lacrou a liturgia latina, para sempre. E ninguém contrariou isto como Paulo VI (anatema est…?).
    Ademais, não se valida um argumento com base no que está vigente, pois que daí poderia se concluir que qualquer coisa que atingisse vigência se enquadraria como um desenvolvimento orgânico. Este conceito costuma derivar de uma visão evolucionista – errônea – do homem e da história.
    Se tudo concorresse para a maior glória de Deus e de Sua Igreja, estaríamos em tal crise?

    Pax Christi,
    Felipe Cruz – Campinas

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