A urgente reforma da tradução do Missal
Infelizmente, a tradução do Missale Romanun de 1970, do latim para o português, foi muito mal feita. Os erros cometidos na versão portuguesa se repetiram em outras línguas, entretanto, mui provavelmente, a nossa realidade supera qualquer outra. Os problemas vão desde a omissão de trechos importantes e a deformação de sentidos até a troca de palavras, tudo para favorecer um inapropriado espírito litúrgico. Para entender como foi feita a tradução nada melhor do que ler o relato do seu mentor; D. Clemente Isnard, OSB.
Em latim:
- Dominus Vobiscum
- Et cum spiritu tuo
Em português:
- O Senhor esteja convosco
- Ele está no meio de nós
Quando o correto seria:
- O Senhor esteja convosco
- E com o teu espírito
Na tradução do Missal para a língua inglesa o mesmo erro se repetiu. Entretanto, a Conferência dos Bispos dos EUA, acatando o pedido da Santa Sé por edições reformadas e revistas, lançou uma nova versão com uma acentuada melhora.
- The Lord be with you.
- And also with you.
Foi corrigido para:
- The Lord be with you.
- And with your spirit.
Vejam este link, contém a reforma feita na tradução do Missal em inglês. As diferenças são enormes e gritantes. Com a correção, o sentido Sacrificial da Liturgia foi exaltado e passou a ser melhor expressado.
A nossa Oração Eucarística V – feita por um misterioso Sacerdote maranhense – nasceu durante o processo da tradução. Esta consegue ir desde erros de linguagem culta – “A todos que chamastes pra outra vida” “sempre bem felizes no reino que pra todos preparastes” – até imprecisões teológicas profundas:
“Toda vez que comemos deste pão, toda vez que bebemos deste vinho, anunciamos a morte de Jesus, proclamamos a sua ressurreição e aguardamos a volta do Senhor que vem satisfazer nosso ardente desejo de amor que tem sede e fome da presença do Senhor.”
E a Transubstanciação? Desde quando há pão e vinho no Altar depois da Consagração?
Nem mesmo o tradicional Cânon Romano passou ileso. Na versão original, em latim, depois da resposta ao “Mistério da Fé”, o Sacerdote reza:
“V. Unde et mémores, Dómine, nos servi tui, sed et plebs tua sancta, eiúsdem Christi, Fílii tui, Dómini nostri, tam beátæ passiónis, necnon et ab ínferis resurrectiónis, sed et in cælos gloriósæ ascensiónis: offérimus præcláræ maiestáti tuæ de tuis donis ac datis hóstiam puram, hóstiam sanctam, hóstiam immaculátam, Panem sanctum vitæ ætérnæ et Cálicem salútis perpétuæ.”
Não precisa ser um grande conhecedor de latim para perceber que, comparando com a tradução oficial, há perda de relevantes trechos:
“V. Celebrando, pois, a memória da paixão do vosso Filho, da sua ressurreição dentre os mortos, e gloriosa ascensão aos céus, nós, vossos servos, e também vosso povo santo, vos oferecemos ó Pai, dentre os bens que nos destes, o sacrifício perfeito e santo, pão da vida eterna e cálice da salvação.”
A parte da “Hóstia Santa! Hóstia Pura! Hóstia Imaculada etc” foi simplesmente cortada!
Depois do ofetório o Presbítero clama:
“Orai, Irmãos e Irmãs, para que nosso sacrífio seja aceito por Deus Pai todo poderoso.”
Entretanto, a versão original, em latim, frisa com mais perfeição o sentido do Sacrifício celebrado pelo Sacerdote:
“Oráte, fratres: ut meum ac vestrum [meu e vosso] sacrifícium acceptábile fiat apud Deum Patrem omnipoténtem.”
Antes da Consagração do Vinho, o Sacerdote reza:
“V. Símili modo, postquam cenátum est, accípiens et hunc præclárum cálicem in sanctas ac venerábiles manus suas, item tibi grátias agens benedíxit, dedítque discípulis suis, dicens:”
Que foi traduzido como:
“V. Do mesmo modo, ao fim da ceia, tomou o cálice em suas mãos, deu graças novamente, e o deu a seus discípulos dizendo:”
Foi retirada a “Sanctas et venerabiles manibus suas”
Ademais, como é de conhecimento de muitos – ou seria de todos? -, houve uma modificação nas palavras da Consagração do vinho. Obviamente, não chega a invalidar a Missa, longe disso, mas exprime de forma imperfeita uma verdade.
“ACCIPITE ET BIBITE EX EO OMNES: HIC EST ENIM CALIX SANGUINIS MEI NOVI ET ÆTERNI TESTAMENTI, QUI
PRO VOBIS ET PRO MULTIS [POR MUITOS] EFFUNDETUR IN RE M I S S I O N E M PECCATORUM. HOC FACITE IN MEAMCOMMEMORATIONEM.”
“TOMAI TODOS E BEBEI: ESTE É O CÁLICE DO MEU SANGUE, O SANGUE DA NOVA E ETERNA ALIANÇA, QUE SERÁ
DERRAMADO POR VÓS, E POR TODOS, PARA A REMISSÃO DOS PECADOS. FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM.”
Os problemas vão além desses aqui listados, mas espero ter ajudado a entender a crucial importância da revisão da tradução do Missal. Graças a Deus a Santa Se está atenta, cobrará as novas edições, quer as Conferências as façam ou não. Rezemos, e muito, na intenção dos trabalhos dos liturgistas!
Nesse vídeo, de uma Missa na forma ordinária, em latim e versus Deum, celebrada em São Paulo, por Pe. Renato Leite, podemos ouvir o Cânon Romano:





Não consigo entender o quer dizer a expressão:
- O Senhor esteja convosco
- E com o teu espírito
Acho a expressão “- O Senhor esteja convosco
- Ele está no meio de nós” mais fácil de se compreender.
Domingos,
Não é uma questão de facilidade, mas de fidelidade. “Ele está no meio de nós” é uma tradução falha, errada.
Alguém sabe dizer a diferença entre “Ele está NO meio de nós” de “Ele está POR meio de nós”.
Sr. Domingos Sávio,
Nem os tradutores que inventaram esse “Ele está no meio de nós” sabem o que significa isso.
Até que enfim aparece uma prova da existência da Missa Nova em latim e versus Deum em terras tupiniquins.
Coisa tão rara quanto cabeça de bacalhau. Mais rara que o Rito Gregoriano, até.
Prezado Domingos, Ludetur Dominus!
Qual é a dificuldade em entender a expressão “E com teu espírito”. Ela está em português. Você não entende português?
Mas vamos considerar que você não entenda. Você acha que o fato de ter uma frase que você não entende na Missa prejudica a celebração de algum modo?
Pax et Salutis
Querem ser mais realista do que o rei.
Pretende colocar o padre e o povo como o centro da liturgia. Colocaram Jesus Cristo em segundo plano. Rezam de frente para o povo e ficam de costas para Cristo. É nisso que dá a criação de um novo Missal. Porque não ficaram com o de São Pio V?
Talvez seja porque no Missal Tridentino, quem aparecia era Jesus Cristo, mas hoje, acreditam que quem deve aparecer é o povo, as gerentes de Igreja.
Assim, até onde entendo, “O Senhor esteja convosco” indica que o sacerdote deseja à assembléia a presença do Senhor com ela), enquanto “E com teu espírito” manifestaria o desejo da assembléia de que o Senhor esteja com o sacerdote.
Ou seja, acaba sendo uma oração do sacerdote pelo povo e do povo pelo sacerdote. Na atual tradução, acaba sendo uma oração do sacerdote pelo povo e do povo pelo próprio povo (e o sacerdote que se lasque!).
Té mais
João Marcos
Caro João Marcos,realmente faz sentido essa sua explicação.
Agora ficou claro para mim.
Precisaríamos apenas definir a quem se dirige o pronome “teu”. No caso, se é para o sacerdote apenas ou se para todos invocarmos o Espírito de Jesus, ou seja, se o “teu” se dirigiria a Jesus. Como recebemos a Eucaristia, o próprio Jesus, a Ele estaríamos pedindo o Espírito Santo, para que o Espírito de Jesus nos acompanhe para fora da Igreja-templo e faça morada permanente em nós através da Comunhão. Parece ser mais lógico, porque teria impelido a tradução “Ele está no meio de nós”, como sendo uma resposta menos humilde, parecendo querer dizer: “já temos o Espírito Santo, porque recebemos a Comunhão”.
Assim, para responder essa dúvida, vou ter que me valer de uma interpertração gramatical do texto litúrgico (e que, sinceramente, não sei se tem algum amparo).
Pelo que percebi, “spiritu tuo” está todo em letra minúscula. Geralmente (e assim percebi na escrita do texto), toda vez que se usa palavras referentes a Deus, se usa a primeira letra maiúscula. Ou seja, isso me leva a entender que seria o povo desejando ao padre que o Senhor também estivesse com ele. Se fosse “E com o Espírito Santo também” (pegando o sentido da afirmação), creio eu que estaria escrito “Et cum Spiritu Tuo”.
Num sei se procede isso, mas, a primeira vista, é o que consegui entender.
Té mais
João Marcos
Mas, João Marcos, não há sequer motivo para discutir sobre o sentido de “Et cum spiritu tuo”. SEMPRE se soube que ele significa uma resposta do povo ao padre. Algo como “E com o senhor também, padre”. Mal comparando, é uma troca de “bom dias”.
Tanto é assim que os antigos missais bilíngues para o povo, traziam, como tradução a “Et cum spiritu tuo” algo como “E contigo também”.
Estás certo, meu caro, mas não precisava esse malabarismo todo, dado que essa questão nunca foi objeto de disputas.
Valeu pela explicação Rafael.
Esse “malabarismo” que acabei fazendo (e de fato ficou meio enrolado mesmo) acabou se dando porque, primeiro, eu não sabia como era em latim e, segundo, porque, mesmo depois de saber, eu mesmo não me havia questionado (só o fiz depois que o Domingos Sávio e o Leonardo fizeram).
De qualquer forma, fico mais tranquilo!
Té mais
João Marcos
O malabarismo que causou tudo isso e que causa confusão no sentido das coisas é o malabarismo feito pelos “tradutores” do missal. Eu não consigo, por mais que me esforce, acreditar que se trate de um mero erro. Isso foi feito na maldade mesmo para induzir as pessoas a erro!
Eu acho que até num foi maldade, não. Mas, sabe como é que é, de boas intenções o inferno está cheio!
Té mais
João Marcos
Eu gostaria de saber se agora na nova tradução do
Missal, já se sabe se virão as devidas correções de tradução???
“Hostiam puram, hostiam sanctam, hostiam immaculatam” foi traduzido sim, por “sacrifício perfeito e santo”. Porque em latim hostia não significa “hóstia”, mas sim a vítima sacrificial ou o sacrifício em si – não é uma tradução perfeitamente literal, mas ela traduz bem o espirito.