Espanto com a situação disciplinar dos padres anglicanos é sem motivo

2009 novembro 12
by Taiguara Fernandes

Há quem tenha se espantado de o Papa ter permitido aos clérigos anglicanos convertidos que fossem ordenados sacerdotes mesmo sendo homens casados – afinal, assim permitira a Comunhão Anglicana em tempos passados. Afirmam inclusive que Sua Santidade foi injusto com os padres latinos, a quem é imposto o celibato, enquanto que a outros este fardo não é colocado; estariam, para estes, os padres latinos em condição de reclamar de Sua Santidade por esta sua atitude por demais favorecedora aos padres anglicanos.

O espanto destes só pode encontrar fundamento no esquecimento de uma coisa básica: sempre houve padres casados na Igreja; os orientais sempre tiveram permissão para ser sacerdotes casados e isso nunca arredou um pé da decisão da Igreja latina de impor uma disciplina de celibato aos seus padres; se os padres latinos forem reclamar agora, por causa dos anglicanos convertidos, teriam motivo para reclamar desde sempre, pois sempre houve orientais casados; somente dos Bispos sempre se exigiu que fossem celibatários – o que é exatamente o mesmo que se fez aos anglicanos. Enfim, esta situação disciplinar dos anglicanos não é inovação coisa nenhuma. O padre latino que queira reclamar do celibato por causa dos anglicanos casados teria tido motivo para reclamar ex tunc, já que sempre houve padres católicos – da Igreja Oriental – casados.

O celibato sacerdotal existe na Igreja desde os tempos primitvos: São Paulo já o aconselhava aos sacerdotes (cf. I Cor. 7, 25-40); mas o Apóstolo das Gentes era da opinião, que foi recolhida na tradição oriental, de que o estado do sacerdote deveria ser aquele em que se encontrasse no momento da ordenação: se casado, não se desligasse; se não casado, não procurasse mulher (cf. I Cor. 7,27). Mas isto se dava em virtude da situação existente, de judeus convertidos ao Cristianismo, e que eram casados enquanto judeus. Com o tempo, a Igreja latina foi acolhendo em si a idéia de que era melhor ao sacerdote está desimpedido de qualquer preocupação com esposa ou família: sua família deveria ser seus paroquianos. Isto foi confirmado em diversos Concílios e por inúmeros Papas e Padres da Igreja, especialmente a partir dos inícios do século IV. No Oriente, permaneceu a antiga tradição, aplicável aos judeus convertidos na época primitiva, tradição que permitia aos homens casados serem ordenados sacerdotes, mas exigia dos candidatos a Bispo que fossem celibatários; esta disciplina foi definida no Concílio de Trullos em 692, e nenhum Papa lhe foi contrária, ao contrário, respeitavam as tradições disciplinares orientais. Surgia, assim, duas linhas de disciplina na Igreja, ambas católicas: a da Igreja latina ou ocidental, que achava ser melhor o celibato aos seus sacerdotes; e a da Igreja oriental (que não se restringe às Igrejas Ortodoxas separadas de Roma, havendo no Oriente muitas Igrejas católicas em comunhão com o Papa) que permitia a homens casados ordenarem-se sacerdotes. Isto sempre esteve presente na disciplina da Igreja; nenhum Papa se lhe opôs. Se alguém quiser reclamar agora do que esta sendo decidido quanto aos clérigos anglicanos teria motivo para reclamar desde sempre, e contra toda a tradição disciplinar da Igreja, que sempre permitiu aos orientais manterem a disciplina que achavam mais adequada – e o Papa fez o mesmo aos anglicanos agora.

Em que, pois, a Igreja está sendo injusta? Em aplicar uma medida que sempre – sempre mesmo – existiu? Se ela aplicava essa medida aos orientais, pois assim convinha à sua tradição, porque não pode aplicar aos anglicanos, já que também é conveniente à sua tradição? Injusta seria ela se, permitindo aos orientais que sejam sacerdotes casados por causa de sua tradição disciplinar, impusesse aos anglicanos um fardo diferente desconsiderando sua tradição disciplinar: o que é isso, considera a tradição dos orientais e desconsidera a dos anglicanos, sendo quase a mesma situação disciplinar?

Aliás, se o Papa S. Gregório VII – a quem cabe a definição mais rigorosa do celibato sacerdotal aos padres latinos, no século XI, celibato que, como dissemos, sempre existiu – naquela época respeitou a tradição disciplinar dos orientais, permitindo que continuassem a ordenar homens casados como sempre fora feito no Oriente, porque Bento XVI não respeitaria a tradição disciplinar dos anglicanos hoje? O Papa está no mesmo uso de seus Predecessores, não está arredando um pé das atitudes anteriores. Ademais,  sempre houve conversão de anglicanos – embora não na quantidade e grandiosidade da atual -, e nunca a Igreja exigiu dos clérigos anglicanos convertidos nada mais além de sua adesão firme e incondicional à Fé Católica e ao Papa, sempre permitindo que seus sacerdotes casados continuassem sendo sacerdotes e casados aqui, na Igreja Católica, isso bem antes de Bento XVI ou do Concílio Vaticano II, já na época de Leão XIII – quando declarou as ordenações anglicanas inválidas e houve um certo movimento de conversão – e dos Papas Pio XI e Pio XII.

O estranhamento ou espanto atual é sem motivo ou talvez advenha do fato de o assunto desta vez estar sendo tratado com maior relevância, já que não foram um ou dois padres anglicanos que voltaram, mas uma massa gigantesca de sacerdotes, o que por si chama mais a atenção. Mas as medidas são as mesmas que sempre foram aplicadas, não há nada de novo, não há nenhum “precendente” para que os latinos reclamem: precedentes, se quiserem, já teriam há tempos, desde que foi permitido aos orientais, nos tempos primitivos do Cristianismo, que continuassem a ser ordenados mesmo se casados. Não é agora que algum padre latino vai ter motivo para falar do seu celibato: se quisesse já poderia tê-lo feito desde o século XI. Além disso, um padre latino decide ser padre com conhecimento do que lhe será pedido: o celibato; e mesmo assim foi sua decisão, com tudo que representa. Não é a mesma situação dos anglicanos, que faziam parte de uma Comunidade que permitia a ordenação de clérigos casados, e depois converteram-se à Igreja Católica.

Outrossim, é a Igreja que impõe a disciplina, então ela pode também não impô-la para quem quiser. Disciplina é assunto eclesiástico, pastoral, não é questão do Depósito da Fé, ao qual até a Igreja deve dobrar-se porque vem do Alto. Do mesmo jeito que o Papa não impôs celibato para os anglicanos ou os orientais, poderia liberar um padre latino em específico do celibato se este pedisse e Sua Santidade desejasse. Afinal, a disciplina é um assunto de governo, que compete essencialmente ao Santo Padre – observado o Depósito da Fé -, quem detém poder pleno, supremo e universal sobre toda a Igreja.

3 Responses leave one →
  1. 2009 novembro 13
    João Marcos permalink

    Essa discussão sobre o celibato é a mesma da greve no serviço público. Vejamos:

    O sujeito se preparara para um concurso público, sabendo qual é a carreira que está entrando. Aí, o sujeito vê no edital quanto vai ganhar, e mesmo assim mete bronca. Depois que entra, num dá dois meses já está fazendo greve por aumento de salário. Mas, céus, ele não sabia quanto ia ganhar?

    Só se respeita as regras até ser empossado (ou ordenado)? Depois disso, é começar a querer mudar as regras do jogo? Isso é molecagem.

    Té mais

    João Marcos

    PS: pelo amor de Deus, não to falando que ão deve ser reajustado os salários dos servidores públicos. Mas é estranho o cara recém concursado fazer greve, isso é.

  2. 2009 novembro 16
    Rui Machado permalink

    Ordenação de pastores luteranos casados ocorreu nos pontificados de Pio XII e João XXIII.

  3. 2009 novembro 17
    Rui Machado permalink

    Eu soube, por mais de uma fonte, que, no pontificado de Pio XII, pastores luteranos convertidos ao catolicismo foram ordenados padres casados. Tal fato parece ter se repetido no pontificado de João XXIII. Portanto, a prática não é nova, nem deveria despertar espanto de ninguém.

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