O problema da liturgia centrada na comunidade, e não em Deus

2009 outubro 29

O Cardeal Cañizares, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, da Santa Sé, concedeu uma fantástica entrevista em que denuncia certos aspectos do modo como hoje se celebra, na maioria das igrejas, oratórios e capelas, a Santa Missa na forma ordinária do rito romano. Sua principal crítica é ao antropocentrismo de certos celebrantes, que não entendem a verdadeira dimensão do culto litúrgico, que deve ter Deus por destinatário.

É bem verdade o que diz o Purpurado. Nos últimos anos, por uma terrível má compreensão da reforma litúrgica, espalhou-se, mundo afora, uma concepção errônea de que a Missa deve ser para o povo, deve estar centrada nos fiéis. A própria popularização da celebração versus populum, o verdadeiro ódio ao latim, o aposentar do canto gregoriano e da polifonia sacra, a introdução de um comportamento infantil por parte de alguns celebrantes, a desobediência às rubricas, e a contínua e ilegítima criatividade, são parte do problema.

Não se tira a responsabilidade do modo como o Mons. Bugnini, nos anos 60, conduziu a reforma litúrgica, enganando Paulo VI, que se encontrava em profunda crise de depressão bem na época em que a esmagadora maioria do episcopado lhe virava as costas por conta de sua firmeza na defesa da moral matrimonial. Todavia, mais do que certos defeitos das rubricas, e verdadeiros “crimes” feitos na amputação de nossa tradição litúrgica (não insistindo no versus Deum, por exemplo, ou “assassinando” nosso ofertório tradicional de verdadeiras feições sacrificais, substituindo-o por um arremedo de ofertório judaico muitíssimo simplório, ou, então, a completa retirada de nossas belíssimas e significativas “orações ao pé do altar” e do “último Evangelho”, a falta de ênfase no latim como língua litúrgica, simplificações desnecessárias etc), os grandes problemas estão, na realidade, na desobediência pura e simples ao Missal e aos fartos documentos que mandam como deve ser a Missa.

Sim, não negamos que a reforma teve aspectos negativos, e isso o próprio Papa Bento XVI vem dizendo desde seu cardinalato. Sem embargo, ainda que com defeitos, as rubricas e o texto da Missa na hoje chamada forma ordinária, mantém a sacralidade, e uma mínima indicação de que se trata de um sacrifício. O erro atual não é tanto da reforma litúrgica feita na época de Paulo VI – embora tenha sua parcela de culpa -, mas de simples ignorar das próprias rubricas.

É bem verdade que o rito atual precisa ser melhorado – e o será na medida em que, naturalmente, for influenciado pelo rito antigo, tornado forma extraordinária e liberado justamente para essa função de enriquecimento em uma “reforma da reforma” -, mas as rubricas desse rito atual NÃO dizem que é para esquecer a casula, NÃO dizem que é para celebrar a Missa sem aquela atmosfera sacra tão necessária, NÃO dizem para fazer de conta que o gregoriano e o latim não existe, NÃO dizem que está proibido o versus Deum, NÃO dizem para aposentar o incenso, a compostura, a noção de que se está diante do Altíssimo, NÃO dizem para “dar bom-dia” aos fiéis, NÃO dizem para deixar de lado o cristocentrismo…

Rezemos pela reforma da reforma, e façamos a nossa parte: promovendo um adequado culto litúrgico na forma ordinária, com todos os aspectos positivos que ela contém, e valorizando a forma extraordinária para que se torne popular e possa influenciar aquela.

Enquanto isso, leiam a entrevista do Cardeal Cañizares.

6 Responses leave one →
  1. 2009 outubro 29
    Fábio Fausto permalink

    +
    PAX

    Simplesmente inacreditável o que se lê neste post.

    Se assumimos, como no texto, que a Nova Missa:

    1- Favorece o antropocentrismo;
    2- Foi literalmente fabricada por Bugnini e contra a vontade do papa, já que este foi “enganado”;
    3- Suas rubricas possuem DEFEITOS;
    4- É CRIMINOSA, pois AMPUTA partes essenciais da Missa e vai contra a Tradição;
    5- Possui uma MÍNIMA indicação de que se trata de um sacrifício [sic];
    6- Precisa ser MELHORADA [sic]

    Então, nosso papel como católicos é a de promover essa Missa?

    Ora, o culto máximo da Igreja que deve ser dado a Deus, tem uma MÍNIMA indicação de sacrifício? Então, por 40 anos é esse o culto que se tem prestado a Deus com A Nova Missa? Através de uma liturgia que foi feita por meio de uma sabotagem do papa então reinante?

    E o sr., dr Rafael, vem me dizer que temos que promover essa Missa?

    Por favor…

    Como é que se pode permanecer defendendo o erro da Nova Missa diante de tamanha confissão de sua ineficácia???

    São Pio X, rogai por nós!

  2. 2009 outubro 29
    Renato permalink

    29
    OutALGUNS “CARISMAS” DA RCC
    Posted by Adversus Haereses in RCC, Renovação carismática, Repouso no Espírito

    LISTAGEM ABAIXO DE ALGUNS “CARISMAS” DA RCC

    ALGUNS PROBLEMAS QUE SURGEM NOS GRUPOS DE RENOVAÇÃO CARISMÁTICA

    Trecho extraído do livro Parákletos

    1. Emocionalismo: confundir fé com emoção;

    2. Antiintelectualismo e pietismo: supor que basta a piedade e que não há necessidade de instrução na fé;

    3. Gnosticismo: sentir-se “conhecedor das coisas divinas” e, portanto, perfeito, devido às “experiências” espirituais recebidas;

    4. Iluminismo: aceitar a falsa pretensão de ser iluminado e guiado somente do alto;

    5. Independência: ter a ilusão de depender unicamente do Espírito, sem estar sujeito em nada a qualquer autoridade, desconhecendo o carisma hierárquico da Igreja;

    6. Imediatismo: esperar tudo de uma intervenção direta e milagrosa de Deus, ignorando o exercício dos meios e da prudência humana;

    7. Fundamentalismo bíblico: tomar o texto da Escritura ao pé da letra, sem nenhuma norma de interpretação e aplicá-lo de imediato às circunstâncias presentes;

    8. Elitismo: sentir-se superior, depreciar o que não é diretamente Renovação e criticar aqueles que não partilham as mesmas idéias;

    9.Gula pseudo-espiritual: alimentar uma avidez demasiado humana de experiências espirituais que não passam de experiências psíquicas;

    10. Carismania: reduzir a Renovação a uma carismania barata e perigosa;

    11. Desconhecimento do Ecumenismo: crer ingenuamente que não há diferenças profundas entre católicos e outras expressões cristãs.

    12. Alienação.

    ***

    “Desde 1952 estive examinando também a fenomenologia pentecostal, e aproveitava as oportunidades que me eram oferecidas para observá-la, já que do ponto de vista psicológico, o que se via nos cultos pentecostais era muito parecido com o que acontecia nas sessões espíritas e nos terreiros umbandistas. Todos prometiam resolver os mil problemas da gente com a ajuda ou intervenção perceptível do além.” (KLOPPENBURG, BOAVENTURA, Parákletos: O Espírito Santo,ed. Vozes, 1998, p.148 -149)

    http://advhaereses.blogspot.com/2009/10/alguns-carismas-da-rcc.html

  3. 2009 outubro 30
    Rafael Vitola Brodbeck permalink

    Estás tirando minhas frases do devido contexto para fazê-las dizerem o que eu não disse.

    O rito novo, com todos os defeitos acidentais, ainda assim é aprovado pela autoridade da Igreja, por quem de direito, e é, de fato, a Missa normativa há 40 anos. A Igreja não poderia nos enganar esse tempo todo, favorecendo a celebração de um rito heretizante, ou tendente à heresia.

    Com todos os problemas, que podem ser corrigidos, aliás, é uma forma lícita e santa da Missa.

  4. 2009 outubro 30
    Magna permalink

    Rafael Vitola,
    “Não se tira a responsabilidade do modo como o Mons. Bugnini, nos anos 60, CONDUZIU (antropocêntrica) a reforma litúrgica, enganando Paulo VI”

    Depois afirma: “A Igreja não poderia NOS ENGANAR esse tempo todo, favorecendo a celebração de um rito heretizante, ou tendente à heresia.”

    Mas se o próprio Papa VI foi enganado?!

    Não afirmo que o rito seja “heretizante”, mas pelo que tu próprio postou, tende à heresia. Pois não haveria o porque da “reforma da reforma”.

  5. 2009 outubro 30
    Rafael Vitola Brodbeck permalink

    Caríssima Magna,

    Ser heretizante e tender à heresia são expressões sinônimas.

    A reforma da reforma é para colocar os pingos nos is, não para corrigir tendências à heresia, mas nuances, lacunas, buracos, que podem, aí sim, fazer com que o celebrante sequestre a liturgia para seu pensamento ideológico, e para inserir o rito na continuidade e no harmônico desenvolvimento litúrgico.

    Enfim, o Papa foi enganado, mas chancelou e manteve a Igreja por 40 anos esse rito. Não poderia a virtual totalidade dos padres e Bispos do mundo celebrarem, todos os dias, um rito tendente à heresia. Ainda com seus defeitos, é ortodoxo. Pode e deve ser corrigido, talvez até para que o rito moderno seja a continuidade do rito anterior, sem essa situação (necessária, por ora, mas absolutamente estranha) de duas formas do mesmo rito separadas por datas: o ideal seria o desenvolvimento orgânico do mesmo e único rito romano, com aspectos novos, como sempre se deu nas reformas litúrgicas, mas sem lhe arrancar fora muito da estrutura básica e uniforme do Ordo anterior.

    Como será um futuro rito romano unificado? Não sabemos. Que será com o “melhor das duas formas”, certamente. Mas, na prática, ignoramos. Podemos conjecturar, e isso é lícito, mas a atitude que deve sempre nos motivar e é causa de união, ademais, é a de quem reza, espera e confia.

    Como este é um blog, talvez não seja o melhor espaço para desenvolvermos isso. Peço a caridade de entender. No site temos artigos mais aprofundados sobre o tema e iremos escrever outros ainda.

  6. 2009 novembro 4
    Renato permalink

    Papa ressalta a “utilidade e a necessidade de uma sã discussão teológica na Igreja”.

    [H2Onews] Uma sã discussão teológica na Igreja é útil e necessária, “sobretudo quando as questões debatidas não foram definidas pelo Magistério”. Foi o que disse o Papa nesta manhã na catequese da audiência geral, dedicada ao confronto entre São Bernardo de Claraval, representante da teologia monástica, e o teólogo escolástico Abelardo. Um confronto aceso mas concluído com uma plena reconciliação, porque toda controvérsia teológica, sublinhou Bento XVI, deve também hoje visar a salvaguarda da fé da Igreja e fazer triunfar a verdade na caridade.

    O grave perigo da “teologia da razão” que tinha como paladino Abelardo, e submetia as verdades da fé ao exame crítico da razão, explicou o Papa, era intelectualismo, a relativização e a discussão das mesmas verdades da fé. Abelardo também considerava a intenção do sujeito como única fonte para analisar a bondade ou a malícia dos atos morais: uma subjetivação perigosa e semelhante, comentou Bento XVI, ao atual relativismo ético. Essas discussões, concluiu o Papa, devem, entretanto, evitar criar confusão nos fiéis simples e humildes, que correm o risco de ser desviados “por opiniões muito pessoais e por argumentações teológicas inconvenientes, que poderiam colocar em perigo a sua fé”.

    http://fratresinunum.com/2009/11/04/papa-ressalta-a-utilidade-e-a-necessidade-de-uma-sa-discussao-teologica-na-igreja/

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