Vaticano II, o Papa, os bispos da SSPX e a vontade de Deus
Ontem foi um dia muito importante para os católicos que amam a Santa Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Primeiro porque foi divulgada uma carta do Santo Padre, o Papa Bento XVI, em que explica mais uma vez a razão de acolher na cominhão da Igreja os quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (SSPX) que incorreram na excomunhão latae setentiae por terem recebido a ordem episcopal sem o mandato pontifício. Nesta carta o Papa confirma o que já dissemos outras vezes: que seu gesto representa o estabelecimento do diálogo entra a Santa Sé e a Fraternidade de dom Lefèbvre. Segundo o próprio Santo Padre, “este gesto tornara-se possível depois que os interessados exprimiram o seu reconhecimento, em linha de princípio, do Papa e da sua potestade de Pastor, embora com reservas em matéria de obediência à sua autoridade doutrinal e à do Concílio”.
Agora a Fraternidade tem a oportunidade de tratar suas reservas ao Concílio de forma realmente filial, de forma condizente com os princípios católicos e não da forma equivocada com a qual fazia antes, atacando desrespeitosamente o Santo Padre, levando muitas almas ao sedevacantismo.
Aliás, ontém também o bispo Fellay, superior da SSPX, também publicou um comunicado a respeito da carta do Papa. Comunicado que nos encheu de alegria, especialmente pelas seguintes palavras:
Longe de querer parar a Tradição em 1962, nós desejamos considerar o Concílio Vaticano II e o ensino pós-conciliar à luz desta Tradição que São Vicente de Lérins definiu como “o que foi crido sempre, por toda a parte e por todos” (Commonitorium), sem ruptura e num desenvolvimento perfeitamente homogêneo. É assim que nós poderemos contribuir eficazmente à evangelização pedida pelo Salvador. (cf. Mateus 28,19-20)
Ora, é exatamente nesta tecla que temos batido desde 2007, quando tomamos a defesa do Concílio e também a Administração Apostólica São João Maria Vianney. Esta, quando ainda era a União Sacerdotal São João Maria Vianney, através de seu superior, dom Licínio Rangel, assim se pronunciou em 1988:
E aceitar o Concílio à luz da Tradição é o que todos devem fazê-lo, pois esse foi o critério de interpretação indicado pelos Papas que o convocaram e presidiram. Na alocução de 11 de outubro de 1962, na abertura do Concílio, assim se expressou o Papa João XXIII: “O objeto essencial deste Concílio não é a discussão sobre este ou aquele artigo da doutrina fundamental da Igreja… Presentemente, o necessário é que toda a doutrina da Igreja, sem mutilação, transmitida com aquela exatidão que aparece esplendidamente sobretudo nos conceitos e na exposição com que a redigiram os Concílios de Trento e do Vaticano I, seja, nos nossos tempos, por todos aceita com adesão nova, calma e serena…; é necessário que esta doutrina, certa e imutável à qual se deve obsequiosa obediência, seja investigada e exposta do modo que nossos tempos exigem. Porque uma coisa é o próprio depositum fidei, isto é, a verdade contida na nossa veneranda doutrina, e outra é o modo com o qual elas são enunciadas, mas sempre conservando o mesmo sentido e o mesmo alcance (eodem tamen sensu eademque sententia)” (AAS, 1962, pag. 791-793).
O diálogo da Santa Sé com a Fraternidade para a resolução das dificuldades dos ensinamentos do Concílio com os ensinamentos anteriores do Magistério é o que todos os católicos verdadeiros querem. E é esta resolução que o Papa espera que chegue a bom termo, a fim de que a Fraternidade se encontre em plena comunhão com a Igreja:
Especificando uma vez mais: enquanto as questões relativas à doutrina não forem esclarecidas, a Fraternidade não possui qualquer estado canônico na Igreja, e os seus ministros – embora tenham sido libertos da punição eclesiástica – não exercem de modo legítimo qualquer ministério na Igreja.
[...]
Deste modo torna-se claro que os problemas, que agora se devem tratar, são de natureza essencialmente doutrinal e dizem respeito sobretudo à aceitação do Concílio Vaticano II e do magistério pós-conciliar dos Papas.
O Papa, seguindo o caminho de seus predecessores (Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II), quer dar ao Vaticano II seu correto lugar na Igreja. O Papa diversas vezes já disse que o Concílio ainda não foi corretamente recebido e portanto, para que isso aconteça, trabalha para o que ele mesmo chama de “hemernêutica da continuidade”:
Não se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962: isto deve ser bem claro para a Fraternidade. Mas, a alguns daqueles que se destacam como grandes defensores do Concílio, deve também ser lembrado que o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja. Quem quiser ser obediente ao Concílio deve aceitar a fé professada no decurso dos séculos e não pode cortar as raízes de que vive a árvore.
O que irá acontecer, afinal? A Fraternidade acabará reconhecendo que o Concílio é ortodoxo ou será a Santa Sé que verá que ele foi um grande embuste? Muitos apostam numa ou na outra possibilidade. Esquecem-se, porém, que há uma terceira: a vontade de Deus. Sim, talvez não seja nem a Santa Sé ou a Fraternidade que ganhe no fim deste díalogo que foi aberto. Para nós importa que no final ganhe a Verdade, e é possível que a Verdade não seja tão “oito ou oitenta”.




